Atestado médico é mesmo obrigatório?
O que todo corredor precisa saber antes de se inscrever em uma prova.
Os
últimos acontecimentos do final de semana, ocorridos na prova da Meia Maratona
de João Pessoa, suscitou várias teorias da conspiração!, e nenhum debate! sobre
tais eventos, ao ponto da Câmara Municipal de João Pessoa, aprovar Projeto de Lei,
no qual o atestado médico passa a ser
obrigatório nas corridas de rua da nossa Capital. Mas será que isso realmente
deva ser assim?. Vejamos.....
Se você corre, é bem provável que já tenha visto em algum regulamento: “Obrigatória a apresentação de atestado médico de aptidão física.” Ai você pensa!!!, “lá vem burocracia…” Mas cá para nós, um cochicho no pé do ouvido, será que essa exigência realmente protege a nós corredores? Ou virou ou será - no caso da nossa Jampa - só mais um papel no caminho de quem quer largar com aquele kit lindão, e exibir aquele número no peito para dizer: “sou corredor”?. Veja só, não é nossa intenção aqui defender que se ignore a sua saúde ou abandonar o médico. A ideia é outra: Mais do que discutir se precisa ou não apresentar atestado. Pergunto a você corredor, se esse modelo que foi aprovado no dia de ontem, dessa obrigatoriedade vai funcionar de verdade?. A minha opinião pessoal, como ultramaratonista, dirigente de associação de corredores e com mais de vinte anos de experiência em corrida, que neste caso da nossa província, o atestado médico virará só mais um papel.
Na teoria, o atestado médico obrigatório parece super responsável, e de toda forma louvável. Mas a questão é que na prática, o que acontece é algo mais ou menos assim: Você marca uma consulta só pra pegar o atestado. Ai o médico, muitas vezes, não conhece seu histórico esportivo; nesse rolê uma conversa rápida, um exame básico e pronto tá carimbado. Pode ter a certeza que pouca gente vai expor dor no peito ao esforço, falta de ar desproporcional, palpitação, histórico de problemas cardíacos na família, sinais que surgiram nos treinos, e etc. Ou seja, o documento existe, mas o cuidado real, muitas vezes, NÃO!!!. Ai, chega no ponto que acreditamos fazer mais sentido, de que o atestado médico fosse resultado natural de um acompanhamento médico de verdade, e não só um requisito burocrático para concluir a inscrição. A falsa sensação de segurança (para todo mundo). Porque ai, amigo, o real perigo da coisa: a sensação de segurança que o atestado dá. O corredor pensa: “Se o médico assinou, estou liberado pra tudo.” O organizador pensa: “Se todo mundo entregou atestado, está tudo certo.” Só que saúde não funciona assim. Não sou médico, mas temos conhecimento e experiência suficiente para entender que um atestado emitido 3, 6 ou até 12 meses antes da prova não garante que, no dia da corrida, está tudo igual. Pode ter surgido: uma dor nova, um quadro de pressão alta, uma arritmia, um sintoma que a gente finge que “é normal de quem corre, quem não já?...”. Gente, prestem atenção: “A saúde é dinâmica. O atestado é estático”. Por isso, apostar todas as fichas na obrigatoriedade do documento é reduzir um assunto complexo a um pedaço de papel, quando a burocracia vira barreira pra quem mais precisa correr.
Agora, vejamos dois cenários fáceis de se concretizar. O primeiro: Pensa aí numa pessoa que está começando a correr, sedentária há anos, deu os primeiros trotes, ganhou coragem e decidiu se inscrever na sua primeira prova de 5 km. Ela entra no site da corrida e encontra lá: “Obrigatório atestado médico para retirada do kit.” O que pode acontecer, com certeza: Desânimo ao ver que precisa pagar consulta particular; Dificuldade de marcar médico pelo plano ou SUS antes da prova; Vergonha ou receio de “dar trabalho” só por causa de um atestado. Em muitos casos, quem mais se beneficia da corrida (gente que está saindo do sedentarismo) é justamente quem encontra mais barreiras. Pessoas de baixa renda; moradores de cidades com pouca oferta de médicos; iniciantes que ainda não se veem como “atletas”. Para esse público, o atestado obrigatório, em vez de ser proteção, pode virar porta parcialmente fechada. Uma informação boa protege mais que carimbo. O segundo cenário: para a mesma prova de corrida, no regulamento, no site e nas redes sociais, os organizadores falam de forma clara sobre saúde e responsabilidade. Em vez de focar só no papel, eles disponibilizam um questionário de autoavaliação, com perguntas como: “Sinto dor no peito quando corro?”, “Já desmaiei ou quase desmaiei ao me esforçar?”, “Tenho histórico de problema cardíaco na família?”. Ai complementam com recomendações de avaliação médica principalmente para quem: tem hipertensão, diabetes, obesidade ou colesterol alto, é fumante, é idoso, já teve algum sintoma estranho nos treinos, entre outros. Orientam claramente: “Se aparecer dor no peito, falta de ar exagerada, palpitação, tontura ou desmaio, a prova não é prioridade. O médico é”.
Captou a mensagem, percebe a diferença? Em vez de focar apenas em “entregar o papel”, o corredor passa a ser convidado a pensar sobre a própria saúde. É a responsabilidade compartilhada: ninguém corre sozinho. A responsabilidade é dividida: Do corredor: ser sincero com o que sente; não esconder sintoma para “não perder a prova”; buscar avaliação médica quando algo não vai bem; entender que performance não vale mais que a saúde. Do médico: ouvir o corredor como atleta, e não só como “paciente de consultório”; levar em conta histórico, objetivos e tipo de prova; incentivar atividade física, mas com orientação individualizada. Por fim, Do organizador : oferecer percurso seguro, hidratação, apoio médico no evento; comunicar riscos e recomendações com clareza (não só em letras miúdas do regulamento); incentivar, em vez de apenas cobrar documento. Em vez de bloquear inscrição sem atestado, o organizador pode: recomendar avaliação médica para grupos específicos; incluir um termo de ciência, em que o corredor reconhece riscos e a importância do acompanhamento médico; falar de saúde em campanhas, posts, e-mails e não apenas como “exigência”.
O que se precisa é de mais foco em educação, responsabilidade e acompanhamento real. Na prática, o que defendemos aqui e agora é: - Trocar burocracia vazia por cuidado de verdade, valorizando a combinação informação, responsabilidade e estrutura segura.
Deve-se tratar o corredor como adulto responsável, não como alguém que precisa apenas de um carimbo para estar “apto”. No fim das contas, os organizadores, os médicos, as assessorias e os corredores sérios têm um objetivo em comum, que é ver gente correndo, se superando e cruzando a linha de chegada bem. Sem passar mal, sem susto, sem tragédia. Repensar a obrigatoriedade do atestado não é ser contra o cuidado. É justamente o contrário: é tentar trazer o cuidado para mais perto da vida real do corredor.
Então, menos papel por obrigação. Mais consciência por escolha.
Esse é um debate que vale a pena a gente continuar — nas pistas, nos grupos de corrida, nas assessorias e, claro, nos comentários do blog.


